domingo, 28 de dezembro de 2014

Maria, olha pela janela 
Que já passou um mês 
Diz que foi insensatez 
E que ainda gosta dela 

Sofia, diz pro seu freguês 
Que já passou por ela
Pra comprar uma vela 
                                                                  E se despir por três

Maria vem cheia de sorrisos 
Sofia com seus cabelos lisos 
Pra viver um 'era uma vez'



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Não planejado

Ah! Poema safado
Que mesmo morto
Nasceu

Era um poema amado
Que de tão torto
Cresceu

Encontrou-me parado
No cais do porto
De um deus

Poetizei um cado
E no desconforto
Fui eu

Esse poema tarado
De tão absorto
Me absorveu

Ano Um

Ela era parte hindu e parte budista
Era a única riscada da minha lista
Eu, era parte nada e outra parte ateu
Não cria no amor, na alegria ou num deus

Ela estava sentada, pensando no nada
Em pose de fada
Eu tava andando, pra variar, reclamando
Chorando e pensando

Ela veio em silêncio, parou em minha fronte
Me levou pela ponte
Me passou um sermão, disse que o louco é são
E que o sim, já é não

Me ensinou sobre estrelas, e como vendê-las
Para subvertê-las
Em disparates de cor, em arroubos de flor
E, destartes, num amor

Me contou do réu, do juiz e do céu
E disse que o léu tinha gosto de mel
Mostrou-me a poesia, e beleza que via
Em cada canto da travessia

Era médium e sinestésica, e via a forma do som,
A cor do tom, e se eu era bom
Me dividiu em antes e depois dela
E meu corpo em sequela, derreteu qual vela

E no meu calendário, ela é o marco-zero

Contingências

D'algum lugar da Terra 
20/12/2014


Cara Maria, eu não te conheço. Talvez nunca conheça, talvez conheça amanhã. Quiçá seu nome nem seja Maria. Não sei, não te conheço. Mas se você ta aí, lê.
Das coisas que me irritam na vida a primeira delas é o fato de sermos uma contingência. Uma puta duma contingência boba. Se alguma coisa tivesse sido diferente no passado do Universo nós não estaríamos aqui. Se uma porra dum pedaço de pedra voador não tivesse batido no México talvez ainda houvessem uns baita d'uns répteis gigantes andando por aí. Aí, nada do que você viveu teria ocorrido. Nem aquele sorvete que você tomou anteontem, nem o jogo de futebol que você assistiu no último domingo. Nem as pirâmides teriam sido erguidas, nem a Grande Muralha da China existiria.
Somos o resultado de um amontoado de resultados.
Átomos torpes jogados ao acaso. Um pequeno pedaço consciente do universo.
Moça, cê já parou pra pensar nas coisas que poderiam ser diferentes na sua vida? Nas escolhas que você fez há dez anos que te afetam ainda hoje?
É tudo contingência, um bando de matéria flutuando no cosmos deu origem a Terra, esse planetinha sujo que você chama de casa. E um bando de acontecimentos, em parte controlados e, na sua maioria, aleatórios, fazem você ser o que é, hoje. Uma escolha que seu trisavô tomou, uma água que sua avó bebeu na casa do vizinho. Uma coisa dessas poderia acarretar na sua não-existência. Maria, isso me deixa puto da vida, cê não tem ideia.
Imagine que eu, sim, eu mesmo, e você também, simplesmente poderíamos não existir. Quantos acontecimentos improváveis aconteceram pra você ser o resultado delas. Milhões, e milhões e milhões, de espermatozoides e você era um deles, e seu pai também, e seus avós, e seus antepassados que viviam em árvores. E cada um deles teve que existir para que você, Maria, estivesse aqui.
Agora me diz que isso não te irrita. Essa dança de vai-e-vai da vida.
A vida, essa puta.

                                                                                                 

      Assino como o Doutô, 
um parco conhecedor dessas pequenas liberdades

P.S.: Espero que os inúmeros acontecimentos da vida resultem no nosso encontro.